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Aparelho Psíquico

 

Aparelho Psíquico

 

        Supõe-se o aparelho psíquico como uma organização dividida em sistemas ou instâncias que estão colocados numa certa ordem e formam um conjunto. A palavra "aparelho" se refere à funcionalidade interligada das instâncias entre si e a capacidade de produzir um trabalho. Essa noção aparece desde A interpretação dos sonhos (1900), onde Freud desenha o aparelho como óptico, capaz de condensar, distribuir, focalizar ou dispersar o feixe luminoso -, mostra, por analogia, uma das principais funções do aparelho psíquico: as transformações da energia (dos instintos). É difícil separar o modelo tópico do modelo dinâmico, pois neste último a origem, processamento, distribuição e destino final da energia estão articuladas às diferentes funções que correspondem a cada instancia do modelo tópico.

 

Ponto de Vista Tópico ou Topográfico

 

        Tópico vem do grego topos que significa lugar, portanto, o modelo tópico é um modelo dos lugares. Freud escolhe o sonho como cena para sua primeira modelização -, produção mental que aparece tanto em pessoas normais como em doentes e que é independente do controle consciente. Através do modelo do aparelho psíquico, explica-se o fenômeno da inconsciência com funções de recepção, processamento e arquivo dos estímulos. Em 1891, Freud escreveu um livro sobre as afasias, um tema que critica as teorias da localização anatômica-concreta, onde o início da construção de um aparelho teórico, que descreve lugares não detectáveis histologicamente, se encontra aí.

        O que se encontra no trabalho sobre afasias se resume da seguinte forma:

        - A representação não é mais concebida como estando contida na célula nervosa;

        - A representação não pode mais ser pensada como independente das associações, representação e associações constituem um mesmo processo;

        - A representação não pode mais ser considerada como um simples efeito mecânico da estimulação periférica;

        - A representação deve ser entendida como a diferença entre duas séries de associações - como a diferença entre séries de processos, implicando que o aparelho seja concebido em termos estruturais e não como uma soma de áreas corticais distintas. As associações são responsáveis pela própria estruturação do aparelho.

 

        O aparelho psíquico do primeiro tópico compõe-se de três sistemas: inconsciente (Ics), pré-consciente (PCs) e o consciente (Cs). Este último sistema é, às vezes, denominado Sistema Percepção-Consciência (Cc-Cs).

 

        O primeiro tópico:

 

· Sistema Percepção-Consciente ou Consciência

 

        Esse subsistema está localizado na periferia do aparelho psíquico, esse sistema consciente tem a função de recepcionar informações vindas do exterior e do interior, mas sem conservar nenhum traço dessas informações -, a consciência será um fato fugaz e nunca um arquivo. Tais informações excitarão, no sistema consciente, um registro qualitativo sensível ao prazer e desprazer. O sistema consciente funciona em conjunto com o sistema inconsciente, mas se opõe a ele (o sistema inconsciente registra e conserva as excitações). O sistema consciente cuida dos processos do pensamento e juízo.

 

· Pré-consciente

 

        Sistema do aparelho psíquico que está articulado ao sistema consciente, funcionalmente. Está separado do inconsciente pela censura, responsável pela interdição sofrida pelos conteúdos e processos inconscientes em sua intenção de entrar no campo da consciência. Encontra-se perto do campo consciente, como um pequeno arquivo. Seus conteúdos podem ser recuperados pela vontade que os farão entrar ou não na consciência (diz-se que o conteúdo estava reprimido). Qualquer conteúdo mental pode ser consciente ou inconsciente, caso não seja possível, a localização está no inconsciente (diz-se que o conteúdo estava recalcado). Nele há contido "representações de palavra", mas não uma palavra - essa representação se opõe à "representação de coisa", que está no inconsciente e o predomínio é visual. A "representação de coisa" não pode ser consciente se não estiver associada a alguma representação verbal, encontrada no pré-consciente.

 

· Inconsciente

 

        É o que está fora da consciência, é a parte mais arcaica do aparelho psíquico -, nela se estuda as "representações de coisa" ("representação ideativa", "traço mnêmico" e "representações de coisa" são sinônimos). Tais representações são fragmentos de antigas percepções e dispostas como uma sucessão de inscrições - uma espécie de arquivo sensorial (sem a presença de palavras, de zero a dez ou doze meses, aproximadamente). Mesmo as representações sendo relacionadas a todos os sentidos (auditivo, gustativo, olfativo, tátil e visual), daí o conjunto de representações inconscientes formar fantasmas, carregados de energia proporcionada pelas pulsões. Freud admitiu a existência de uma parte do inconsciente como herança genética - "núcleo do inconsciente", que se articularia com o conceito das "protofantasias" ou "fantasias primitivas ou originárias" -, estruturas fantasmáticas transmitidas filogeneticamente e que têm organização e consistência não correspondente à experiência real infantil vivida pelo sujeito. O inconsciente, também é constituído por energia vinda das pulsões, que opera em conjunto com a representação de coisa, as representações e a energia correspondente caracterizam-se pelo fácil deslocamento e descarga - "processo primário" caracterizado pelo deslocamento e condensação (mecanismos que afetam as representações). A condensação é um produto da intersecção de deslocamentos em vários níveis do inconsciente - pode-se dizer que a condensação é o sintoma e ao deslocamento é o mecanismo que conduz a ele.

 

· Censura

 

        É uma importante região fronteiriça que une e separa o pré-consciente/consciente do inconsciente, é permanente e sua origem confunde-se com a da repressão (recalque) - essa censura é chamada "censura verdadeira", sendo que existe outra mais fraca entre o pré-consciente e o consciente. A censura verdadeira ou censura do recalque é uma força intensa, rígida, responsável pelos impedimentos à passagem dos conteúdos inconscientes à consciência, nesse impedimento a censura opera transformando as representações pelos mecanismos de deslocamento e condensação. Essa censura é um adiantamento do que Freud, depois, descreveu como superego -, incluiu entre as funções do superego, dando-lhe um sentido de coisa vigilante e dinâmica, com caracteres de instância psíquica diferenciada.

 

        O segundo tópico:

 

        Freud elabora sua segunda e definitiva concepção do aparelho psíquico, chamada segundo tópico -, o ego passa a ter partes também inconscientes. Assim, o ego é consciente, pré-consciente e inconsciente; o superego é uma ínfima parte pré-consciente, o restante tem suas raízes mais profundas no inconsciente; o id é totalmente inconsciente. O modelo é antropomórfico - o superego, por exemplo, será "sádico", uma parte do ego luta contra outra parte, e assim sucessivamente. Há uma aproximação analógica entre a teoria do aparelho psíquico e a vida fantasmática dentro do indivíduo.

 

· O Id

 

        É a região da mente que expressa o caráter da personalidade que se diz estranha ao ego. Formado fundamentalmente por pulsões, os conteúdos fantasmáticos do id são, em sua maior parte, hereditários e o restante adquirido. Sob o ponto de vista econômico e dinâmico, é o reservatório e fonte da energia psíquica, sendo que as outras duas instâncias se originam dele -, essa é a parte mais escura e impenetrável da personalidade. É ocupado pelos instintos de vida e de morte, sob o ponto de vista funcional, se assemelha ao inconsciente - nele está o princípio de prazer e o processo primário. É o "grande reservatório" da libido e dos instintos destrutivos. O ego tem se desenvolvido a partir do id, por meio da influencia do mundo exterior.

 

· O Ego

 

        É a instância central da personalidade, a origem do ego é o id em contato com o mundo exterior -, o ego se formaria em contato com o mundo exterior, mas como resultado de identificações, que interiorizadas, introjetadas, formariam sua estrutura. Acumula as funções da consciência e do pré-consciente. O ego em contato direto com o mundo exterior tem funções adaptativas, capazes de fazer uma triagem, selecionando e avaliando a estimulação advinda do meio exterior. É o pólo defensivo da personalidade, cuja representação é a ação repressiva que se manifesta clinicamente como resistência - ação defensiva do ego contra a emergência de conteúdos inconscientes que ameaçam a estabilidade psíquica.

 

· O Superego

 

        Está constituído por aspectos dos pais e identificado com o superego dos pais, encontram-se nele os valores da cultura em que viveu o sujeito. Há nele, também, as ideologias, conjunto de crenças e preconceitos. É a instância fundamental para entendimento da conduta do indivíduo e de sua psicopatologia. Freud denominou Ideal de Ego à instância resultante da articulação entre narcisismo e identificação com os pais, é o antecedente do superego -, o ideal de ego está constituído por imagens de objetos amados e o superego por objetos temidos.

 

Ponto de Vista Econômico

 

        A energia é conhecida na teoria psicanalítica como catexia ou catexis -, a palavra em português "investimento" é mais adequada. Será definida como aquilo que sofrerá aumento, diminuição, descarga, deslocamento, etc. É difícil prescindir da noção econômico-energética, já que alguns quadros psicopatológicos mostram carência de energia em certas áreas, como na esquizoidia, depressões ou histerias conversivas. O curso dos processos mentais é regulado pelo princípio de prazer-desprazer, o desprazer está relacionado com o aumento da excitação e o prazer com a redução -, no desenvolvimento, o princípio de prazer original passa por uma modificação com referência ao mundo externo, dando lugar ao princípio de realidade, com o qual o aparelho mental adia o prazer da satisfação e passa a tolerar temporariamente o desprazer.

 

· Processo Primário e Processo Secundário

 

        São as formas de comportamento do aparelho psíquico, relacionadas à circulação de energia psíquica. No processo primário se caracteriza a livre circulação de energia, que explica o deslocamento da mesma sobre as representações e o valor diferente, em intensidade e significação, adquirido por uma representação em relação à outra -, culmina com a condensação, que oferece uma superdeterminação de representações. É como acontece topicamente no inconsciente. No processo secundário a energia é ligada e altamente concentrada, que explica os processos de atenção, raciocínio, juízo, etc. -, a energia está inibida e não circula livremente, sua função é regular os processos de descarga. Aqui, topicamente se depara com o pré-consciente/consciente. O processo primário está dominado pelo princípio do prazer e o secundário pelo princípio da realidade.

 

· Princípio do Prazer e Princípio da Realidade

 

        O princípio do prazer é um regulador dos processos primários e está articulado ao princípio da realidade (é um desenvolvimento e um aperfeiçoamento do princípio do prazer). Com o nome de princípio da constância, Freud se refere a uma certa faixa de ótimo funcionamento que o aparelho psíquico tende a manter, é correlato do princípio da homeostase biológica. O princípio da Constância é vinculado (às vezes oposto) ao princípio do nirvana, que tende a reduzir ao zero absoluto toda a excitação, sendo o que governa o conceito de instinto da morte. A manutenção da faixa de tensão mais baixa possível é feita pelo princípio da constância. Freud se refere ao princípio do nirvana e da constância como idênticos, opondo-se ao princípio do prazer: "O princípio do nirvana [e também o da constância] expressa a tendência do instinto de morte; o princípio do prazer representa as exigências da libido, e a modificação desta última; o princípio da realidade representa a influência do mundo externo". Princípio do prazer, energia livre e processo primário correspondem ao id e a parte inconsciente; princípio da realidade, energia ligada e processo secundário correspondem ao ego consciente.

 

Ponto de Vista Dinâmico

 

        É aquele que fala das pulsões, instintos, objetos e da sexualidade. É estabelecido que o aparelho psíquico está sob o impacto de dois tipos de estímulos externos ou exteriores e os internos ou interiores, ambos exercem pressão sobre o aparelho, sua diferença está na possibilidade de fugir deles ou não. Os exteriores podem ser afastados mediante a atividade muscular, já os internos exercem pressão mais ou menos contínua, recebe o nome de pulsão e também de instinto - é preferível o termo pulsão que expressa uma idéia de urgência em descarregar, o termo instinto se restringe aos comportamentos hereditários, sobretudo fixos e característicos da espécie.

        "A finalidade de um instinto é sempre a satisfação, que só pode ser obtida eliminando-se o estado de estimulação na fonte do instinto". A finalidade de uma pulsão é conhecida com o nome de meta ou objetivo. A fonte pulsional parece designar não só o que se conhece com o nome de zonas erógenas, mas também causas químicas, mecânicas e a atividade muscular ou intelectual. A especulação teórica leva à suspeita de que há dois instintos fundamentais, ocultos por trás dos instintos do ego e dos instintos do objeto manifestos: Eros, o instinto que luta por uma união mais estreita e o instinto de destruição, levado no sentido da destruição do que está vivo. Em psicanálise dá-se o nome de libido à manifestação da força de Eros.

 

· Teoria das Pulsões

 

        Numa primeira etapa, a dualidade pulsional está descrita em A concepção psicanalítica da perturbação da visão (1910), onde Freud mostra a oposição entre a pulsão sexual e a de autoconservação ou autopreservação -, permite a compreensão de uma referência maior: conservação do indivíduo (pulsões de autoconservação) versus a conservação da espécie (pulsões sexuais). As pulsões sexuais e as de autoconservação se opõem e colaboram entre si -, as pulsões sexuais se apóiam nas funções de autoconservação para sua descarga e extravasamento. As pulsões de autoconservação se denominam "necessidade", com o intuito de diferencia-las da pulsão sexual, esta não precisa de um objeto exterior para se satisfazer, vai se descarregando nos fragmentos funcionais-fisiológicos do próprio corpo (satisfaz-se auto-eróticamente). As pulsões de autoconservação são regidas pelo princípio da realidade, as pulsões sexuais ao se demorarem nas satisfações corporais, prescindem de objetos exteriores, sendo regidas pelo princípio do prazer.

        Numa segunda etapa, Freud introduz o narcisismo (1914) -, substituiu a dualidade pulsões de autoconservação versus pulsões sexuais, pela dualidade libido do objeto versus libido do ego. Leva a reformular a gênese do investimento psicossexual, admitindo que não é só um fragmento do corpo que é investido de energia (zonas erógenas), mas sim a pessoa interia (ego-corpo). O ego se constitui com um reservatório de energia libidinal e implica em um estágio de narcisismo primário ou original -, objetos exteriores ainda não existiam, seria uma etapa na evolução libidinal. Existe um "núcleo" estrutural narcísico, representação do período de desenvolvimento, cujas satisfações eram proporcionadas por objetos exteriores -, o sujeito adulto tende a retornar a esse núcleo em determinadas circunstancias, que constitui o narcisismo secundário, sendo o refluxo energético pulsional que, após ter investido os objetos exteriores, volta ao seu lugar original (o ego). Numa terceira e última etapa, em Além do princípio do prazer, propõe-se duas pulsões que se contrapõem entre si, pulsões de vida e pulsões de morte.

        Fundamentalmente introduzida pela evidência clínica da compulsão à repetição, que a pulsão da morte faz seu aparecimento, a pulsão da vida será oposta, é uma força construtiva que tende a organizar o organismo em conjuntos cada vez mais complexos. O instinto de morte (Thanatos) difere do desejo agressivo de matar alguém, referindo-se mais ao instinto inato para a autodestruição, Freud difere dois tipos: instintos sexuais (Eros), que aspiram e alcançam a renovação da vida e outros que aspiram à dissolução e ao término da vida (Thanatos). Essa idéia não é baseada em princípio biológico, mas em um princípio físico, o da entropia.

 

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